Santo Agostinho: três conversões

D. Carlos Lema Garcia

Celebramos no dia 28 de agosto a memória de Santo Agostinho. Nascido em Tagaste, no norte da África, em 354, era filho de Patrício, um pagão que depois se converteu, e de Mônica, cristã fervorosa. Essa mulher apaixonada, venerada como santa, exerceu sobre o filho uma grandíssima influência e o educou na fé cristã.

O jovem, de inteligência aguda, recebeu uma boa educação. No entanto, teve uma juventude cheia de altos e baixos, procurando a felicidade no prazer, no estudo, numa vida de boemia. Certo dia, no tormento de suas reflexões, tendo-se retirado num jardim, ouviu improvisadamente uma voz infantil que repetia uma cantilena que nunca tinha ouvido: “toma, lê, toma, lê”. Pensando se tratar de uma inspiração divina, deparou-se com um texto paulino e o seu olhar caiu na passagem da epístola aos Romanos em que o Apóstolo exorta a abandonar as obras da carne e a se revestir de Cristo (cf. Rm 13,13-14).

Foi o momento da primeira conversão: aos 32 anos, Agostinho foi batizado por Santo Ambrósio, durante a Vigília Pascal, na Catedral de Milão. Depois do Batismo, Agostinho decidiu regressar à África com os amigos, com a ideia de praticar uma vida comum, de tipo monástico, a serviço de Deus e passou a dedicar-se à vida contemplativa e ao estudo. Este era o sonho da sua vida. Agostinho tinha preparação intelectual e vontade de dedicar-se apenas à vida intelectual, à contemplação, ao estudo e aos seus escritos.

Mas Deus lhe pediu que se tornasse sacerdote e bispo. Foi esta a sua verdadeira e segunda conversão e passou a servir aos fiéis, continuando a viver com Cristo e por Cristo, mas a serviço de todos. Isso era para ele muito difícil, mas compreendeu desde o início que só vivendo para os outros, e não simplesmente para a sua contemplação particular, podia realmente viver com Cristo e por Cristo. Assim, renunciando a uma vida apenas de meditação, Agostinho aprendeu, muitas vezes com dificuldade, a pôr à disposição e em benefício do próximo o fruto da sua inteligência. Aprendeu a comunicar a sua fé ao povo simples, desempenhando, incansavelmente, uma atividade generosa e difícil.

Há, porém, uma última etapa do caminho agostiniano, uma terceira conversão: aquela que o levou todos os dias da sua vida a pedir perdão a Deus. Inicialmente, tinha pensado que quando fosse batizado, na vida de comunhão com Cristo, nos sacramentos, na celebração da Eucaristia, teria alcançado a perfeição doada no Batismo e reconfirmada na Eucaristia (cf. Bento XVI, audiência geral de 27/02/2008). Ainda não compreendera que a perfeita santidade se alcança apenas após a morte.

Santo Agostinho tornou-se um grande santo que iluminou a história da Igreja por ter sido generoso em corresponder aos chamados de Deus. São conhecidas suas palavras: “Se disseres basta, estás perdido: caminha mais, progride mais…”

Nestes anos de caminhada sinodal, nós também precisamos de uma conversão permanente. Até o fim da nossa vida, teremos necessidade dessa humildade de reconhecer que somos pecadores a caminho, até que o Senhor nos dê sua mão definitivamente e nos introduza na vida eterna. Seguindo o exemplo das sucessivas conversões de Santo Agostinho, nós, que não podemos mudar de uma vez, devemos lutar para melhorar em algum aspecto concreto. Por exemplo, na fidelidade à vida de oração e no modo de conviver e acolher as pessoas que encontramos no dia a dia: no trabalho, na família, na Igreja, na vida social etc.

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