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A necessidade de fortalecer vínculos para transformar a educação, defende Diego Marihama

No podcast Educação que Transforma, o Prof. Dr. Diego Marihama reflete sobre o papel da escola na construção de vínculos e defende que a qualidade das relações é um dos principais fatores da aprendizagem.

As transformações sociais, culturais e tecnológicas têm provocado mudanças profundas na forma como as pessoas aprendem, se comunicam e convivem. Nesse cenário, as escolas são continuamente convidadas a repensar suas práticas, seus processos e sua própria identidade. Em meio a tantas mudanças, uma questão permanece atual: o que torna uma escola verdadeiramente capaz de transformar vidas?

Para o Prof. Dr. Diego Marihama, Coordenador Acadêmico do Núcleo de Formação Continuada para Profissionais da Educação da Fundação São Paulo, a resposta não está apenas na modernização dos espaços, na incorporação de tecnologias ou na adoção de metodologias inovadoras. Ela começa na maneira como as pessoas se encontram, dialogam e constroem relações no cotidiano escolar.

A reflexão foi apresentada no podcast Educação que Transforma, produzido pelo Grupo de Pesquisa Práticas Pedagógicas. Dedicado ao tema “O papel da escola na construção de vínculos”, o episódio abordou os desafios e as possibilidades de uma educação orientada pela construção de relações de confiança, pertencimento e diálogo.

Ao longo da conversa, o pesquisador defendeu que ensinar permanece como uma das responsabilidades da escola, mas educar pressupõe algo ainda mais amplo: criar ambientes nos quais cada pessoa se reconheça como parte de um projeto coletivo. E reforça: “Quando existe pertencimento, há confiança. Quando há confiança, existe abertura para aprender. E quando o acolhimento se torna parte da cultura institucional, o desenvolvimento humano acontece de maneira muito mais profunda”.

Aprender é, antes de tudo, uma experiência de encontro

Ao analisar os desafios da educação, Marihama destacou que a aprendizagem não depende exclusivamente da organização curricular ou da competência técnica dos professores, mas está relacionada à qualidade das relações construídas no cotidiano escolar.

Segundo o pesquisador, alunos aprendem com maior segurança quando encontram ambientes marcados pelo respeito, pela escuta e pelo acolhimento; professores ampliam sua capacidade de ensinar quando fazem parte de equipes colaborativas e contam com lideranças que inspiram confiança; as famílias, por sua vez, aproximam-se da escola quando encontram abertura para o diálogo e são convidadas a participar da construção dos projetos educacionais.

Entretanto, essa realidade não se constrói de forma espontânea. O cotidiano escolar é atravessado por diferentes expectativas, conflitos e desafios que envolvem alunos, educadores, gestores e famílias. Divergências de percepção, dificuldades de comunicação e tensões próprias das relações humanas integram a vida institucional e exigem abertura ao diálogo, capacidade de escuta e disposição para a construção de soluções compartilhadas.

Foi justamente nesse ponto que Marihama chamou atenção para uma dimensão frequentemente pouco explorada: a escola não forma apenas alunos, mas exerce um papel formativo junto às famílias e aos próprios profissionais da educação. E afirma: “costumamos atribuir à escola a responsabilidade pela aprendizagem dos alunos, mas esquecemos que ela também é um espaço permanente de formação dos adultos que participam da vida escolar. Educadores aprendem continuamente sobre sua prática, sobre as transformações da sociedade e sobre as novas formas de ensinar. As famílias também encontram na escola oportunidades para refletir sobre seu papel e construir uma relação de corresponsabilidade com a escola.”

Na avaliação do pesquisador, essa dimensão torna-se ainda mais relevante diante das rápidas mudanças sociais e culturais vividas nas últimas décadas. A formação continuada dos educadores tem um grande desafio de se aprimorar pedagogicamente e incorporar competências relacionadas à comunicação, à mediação de conflitos, ao trabalho colaborativo e à construção de ambientes capazes de favorecer todo o processo de ensino e aprendizagem.

Da mesma forma, a aproximação com as famílias não deve ocorrer apenas em momentos de dificuldade ou para tratar do desempenho dos alunos. Ela precisa constituir um processo permanente de escuta, orientação e participação, capaz de aproximar expectativas e compartilhar responsabilidades. Isso, quer dizer, “Construir vínculos não significa eliminar conflitos”, observou Marihama. “Significa desenvolver uma cultura institucional em que o diálogo, o respeito e a corresponsabilidade permitam transformar as diferenças em oportunidades de crescimento.”

Liderança que inspira confiança

Outro aspecto desenvolvido durante o episódio foi o papel das lideranças escolares. Para Marihama, dirigir uma instituição de ensino significa não só administrar recursos ou acompanhar indicadores, cabe aos gestores criar condições para que o diálogo aconteça, favorecer o trabalho colaborativo, mediar conflitos e cultivar uma certa cultura organizacional.

A inovação começa pelas pessoas

Ao abordar o impacto das tecnologias digitais, Diego Marihama reconheceu as inúmeras possibilidades abertas pelos novos recursos. No entanto, chamou atenção para um dos paradoxos mais evidentes do nosso tempo: nunca foi tão simples conectar pessoas por meio das plataformas digitais e, ao mesmo tempo, tão desafiador construir relações humanas profundas.

Nesse contexto, a escola preserva uma contribuição singular, ou seja, é um dos poucos espaços sociais onde crianças, adolescentes, jovens e adultos convivem diariamente, aprendem a dialogar, enfrentam conflitos, cooperam e constroem projetos comuns.

Por isso, a inovação educacional não pode ser compreendida apenas como adoção de ferramentas tecnológicas. Ela também se manifesta na capacidade de criar ambientes em que as pessoas se sintam seguras para aprender, experimentar, colaborar e crescer coletivamente.

A escola que permanece necessária

Ao concluir sua participação no podcast, Diego Marihama propôs uma reflexão sobre o futuro da educação. Na sua avaliação, as instituições que mais contribuirão para a sociedade serão aquelas capazes de formar cidadãos preparados para conviver com a diversidade, exercer a cidadania, assumir responsabilidades e participar da (re)construção coletiva/plural. Mais do que acompanhar as transformações do mundo, essas escolas serão reconhecidas pela capacidade de cultivar relações pautadas pelo respeito, pela cooperação e pelo compromisso com a formação humana.

Ao final, permanece uma convicção que atravessou toda a entrevista: investir na qualidade das relações não representa uma iniciativa paralela ao projeto pedagógico. Trata-se de uma escolha que dá sentido à missão da escola e amplia sua capacidade de responder aos desafios de uma sociedade em permanente transformação.

Em um tempo marcado pela velocidade das mudanças, talvez a maior contribuição da educação continue sendo a mesma: criar oportunidades para que pessoas se encontrem, aprendam umas com as outras e descubram, na convivência, novas possibilidades de transformar a realidade.

Ao encerrar sua participação no podcast, Diego Marihama convidou os ouvintes a aprofundarem a reflexão sobre inovação e transformação institucional por meio de sua produção científica. O pesquisador destacou o artigo “O papel da gestão escolar na construção e implementação de projetos educacionais inovadores”, desenvolvido em parceria com o Prof. Dr. José Moran, referência nacional em metodologias ativas, e com a Profa. Dra. Selma Suely Baçal de Oliveira (in memoriam), Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

O estudo apresenta experiências de implementação de projetos educacionais inovadores, retratando o papel da liderança escolar na construção de uma cultura de inovação, na formação continuada dos educadores e na criação de ambientes de aprendizagem mais participativos e colaborativos. A publicação está disponível para acesso gratuito em Caderno Pedagógico.

https://ojs.studiespublicacoes.com.br/ojs/index.php/cadped/article/view/4831/3317

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