A missão da universidade católica

O contexto em que vivemos pode bem ser chamado de “Era da tecnologia”: dos equipamentos industriais de ponta aos veículos de transporte terrestre e aéreo, dos eletrodomésticos e eletrônicos à internet, smartphones e redes sociais – quase todos os aspectos do nosso dia a dia são profundamente marcados por conquistas técnicas recentes. Esse extraordinário desenvolvimento tecnológico, é claro, não veio do nada: ele está estreitamente ligado ao progresso da ciência moderna, em estreito vínculo com a universidade do mundo ocidental.

Embora haja muito o que comemorar com o progresso da tecnologia – basta pensar nos remédios e intervenções cirúrgicas que salvam tantas e tantas vidas –, este contexto gera, no entanto, um sério risco de superexaltação das ciências empíricas, o que implicaria um reducionismo cientificista pretensioso e desprovido de valores éticos e humanitários, uma vez que, por si só, por sua própria definição de busca de conhecimento com base na investigação empírica sistematizada do mundo, não é capaz de fazer juízos éticos nem políticos. Quem se esquece dessas limitações e pretensamente guia suas ações exclusivamente pela pesquisa empírica corre o sério risco de praticar e justificar atrocidades como aquelas cometidas pelos eugenistas nazistas que, “em nome da ciência”, encarregaram o Dr. Mengele, o “Anjo da Morte” de Auschwitz, de conduzir experimentos desumanos com gêmeos, anões e pessoas com heterocromia…

Há muitas outras formas de conhecimento, além daquele baseado na observação empírico-científica: do que fazem exemplo a Matemática e suas abstrações, o Teatro, a Literatura, a Filosofia… Como, aliás, nos lembra o Catecismo da Igreja Católica, devemos certamente admirar as “investigações científicas que enriqueceram magnificamente os nossos conhecimentos sobre a idade e a dimensão do cosmos, a evolução dos seres vivos, o aparecimento do homem” – no entanto, há ainda “uma questão de outra ordem, que ultrapassa o domínio próprio das ciências naturais. Porque não se trata apenas de saber quando e como surgiu materialmente o cosmos nem quando é que apareceu o homem; mas, sobretudo, de descobrir qual o sentido de tal origem” (nºs 283-284).

Diante de um mundo fortemente tentado a um cientificismo exagerado, uma das principais missões da universidade católica é relembrar aos homens, vez e outra, essas questões mais profundas sobre as indagações fundamentais do homem, sobre como viver e como morrer – e mostrar-lhes que tais discussões não estão excluídas do âmbito da racionalidade nem devem ser relegadas à esfera da subjetividade. Como dizia São João Paulo II, “a Universidade Católica é chamada de um modo especial a responder a esta exigência: a sua inspiração cristã consente-lhe incluir a dimensão moral, espiritual e religiosa na sua investigação e avaliar as conquistas da ciência e da técnica na perspectiva da totalidade da pessoa humana” (Ex Corde Ecclesiae, 7)

Para isso, ela se apoia na convicção de que as diversas ciências e ramos do saber são aspectos de uma única Verdade suprema, que é Deus. Nunca pode haver verdadeiro desacordo entre fé e ciência – pois “o mesmo Deus, que revela os mistérios e comunica a fé, também acendeu no espírito humano a luz da razão. E Deus não pode negar-Se a Si próprio, nem a verdade pode jamais contradizer a verdade” (Catecismo, 159). “Em prol de uma espécie de humanismo universal, a Universidade Católica dedica-se completamente à investigação de todos os aspectos da verdade no seu nexo essencial com a Verdade suprema, que é Deus   e razão não se contradizem” (Ex Corde Ecclesiae, 4).

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