Nosso confronto com o mal

D. Carlos Lema Garcia

No Evangelho do 20º Domingo do Tempo Comum, há uma expressão de Jesus que precisa ser bem compreendida. Jesus está a caminho de Jerusalém, onde o espera a paixão e a morte. Nesse contexto, pergunta aos Apóstolos: Julgais que Eu vim estabelecer a paz na terra? No entanto, sabemos que Jesus pregou sempre o perdão, a reconciliação, e transmitiu continuamente seu desejo de paz. Por isso, estranham essas palavras: Vim trazer a divisão. Precisamos lembrar que Jesus fala em um sentido espiritual: assim, a paz que Jesus nos traz é fruto de uma luta constante contra o mal. O confronto não é combater outras pessoas, mas contra o inimigo de Deus e nosso, o demônio.

A ação do diabo é precisamente fomentar a desunião, a divisão, a separação entre as pessoas. E, na medida em que nos dividimos entre nós, nos separamos também de Deus. Jesus está esperando que nós estejamos firmes em nossa união com Deus e que estejamos dispostos a romper com tudo o que possa nos separar do amor de Deus e do amor ao nosso próximo.

Tal como vemos o sofrimento do profeta Jeremias, por vezes, acontece que alguém passa por um processo de conversão e, como consequência, decide deixar aqueles comportamentos e atitudes incompatíveis com a vida de um verdadeiro cristão, de um filho de Deus. Uma pessoa que, por exemplo, decide ser honesta nos negócios e, para isso, se afasta de condutas antiéticas, pode acabar sofrendo incompreensões e, até mesmo, verdadeiras perseguições. Isso não nos deveria surpreender, porque Jesus Cristo sofreu precisamente por falar a verdade – confirmou ser o Filho de Deus diante dos sumos sacerdotes, e, por isso, foi condenado à morte – e, na vida dos Apóstolos e dos primeiros cristãos, todos tiveram que sofrer incompreensões e hostilidades pelo simples fato de serem pessoas coerentes. Assim, quem desejar seguir Jesus e se comprometer sem hesitações com a verdade encontrará oposições e se tornará, infelizmente, sinal de divisão entre as pessoas, até no interior das suas próprias famílias. O amor aos pais é um mandamento sagrado, mas, para ser vivido de modo autêntico, nunca pode ser anteposto ao amor de Deus.

Além disso, o Evangelho traz outra expressão de Jesus: Vim trazer fogo à terra, e que quero senão que arda? O fogo é sinal do amor ardente de Deus por todos os homens. Jesus revela os seus profundos sentimentos de amor, de desejo de entregar a sua vida para a salvação de todos. Jesus enviou o Espírito Santo em Pentecostes, com o sinal esplendoroso do fogo, das chamas que ardiam e se colocaram sobre a cabeça de cada um dos discípulos, homens e mulheres, que se encontravam reunidos. Eles se inflamaram com o fogo divino e começaram a proclamar as maravilhas de Deus. Esse continua sendo o desejo de Deus: que todos e cada um de nós nos tornemos discípulos missionários de Jesus: que sempre estejamos dispostos a aprender, como bons discípulos, e sejamos verdadeiros apóstolos nos lugares em que Deus nos colocou; que saibamos falar de Deus e da nossa fé cristã, com alegria e convicção, e que sejamos difusores desse fogo de amor, para incendiar outros corações e aproximar as pessoas de Deus, da Igreja, dos sacramentos. Nós, os cristãos, deveríamos levar mais a sério o empenho em propagar esse incêndio de amor.

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