Marta, Maria e Lázaro

D. Carlos Lema Garcia

A Igreja comemora numa mesma celebração, no dia 29 de julho, a memória dos três irmãos de Betânia. Eram bons amigos de Jesus, que se hospedava em sua casa quando estava de viagem a Jerusalém. Percebemos que Jesus gostava de se hospedar na casa dessa família porque era bem recebido: demonstravam o seu carinho deixando um quarto arrumado, preparando uma comida caprichada etc. Também Jesus encontrava pessoas dispostas a ouvi-lo e a dialogar com Ele. Ou seja, tratavam Jesus como Ele realmente é: Deus e Homem; na hospitalidade com que o recebiam e na veneração com que o tratavam.

Imaginamos que estar naquela casa era um consolo, um momento de alegria em meio à resistência da parte de tantas pessoas. Jesus chegaria cansado depois daquelas andanças intermináveis, trazia dor no coração pela indiferença com que o tratavam, reparava que muitos dos que o ouviram não estavam à altura das suas palavras. Por outro lado, os três irmãos também gostavam de receber Jesus. Sentiam falta dEle quando estava na Galileia, procuravam encontrá-lo em Jerusalém. Faziam constantes convites para que viesse e se hospedasse com eles. Maria gostava de se sentar aos seus pés e ouvir a sua palavra, enquanto Marta cuidava do trabalho da casa. Marta não se mostra, com certeza, indiferente às palavras de Jesus; ela também as escuta, mas está mais ocupada nas tarefas domésticas. Por isso, Marta inquieta-se ao sentir-se sozinha, a braços com mais trabalho do que podia realizar: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude”. Jesus responde-lhe no mesmo tom familiar: “Marta, Marta – diz-lhe –, tu te afadigas e andas inquieta com muitas coisas. No entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada”. É como se dissesse: “Marta, você anda correndo: sai e entra, passa rápido, sempre muito ocupada, e nunca encontra tempo para estar um momento calmo junto de mim”.

Podemos tirar duas lições importantes desta cena do Evangelho. Primeiro, aprender de Maria a cultivar a vida espiritual, por meio da conversa com Deus. Jesus está contente com Maria, porque ela conversa com Ele com uma grande confiança. Precisamos aprender de Maria a conversar com Deus. A cuidar desta única coisa necessária: fazer uma oração pessoal, sincera, aberta. Dizer a Deus aquilo que só nós podemos dizer. Por que é importante a oração? Porque é o caminho para conhecer o amor de Deus, para saborear a sorte imensa de ser amigos de Deus, de ser familiares de Deus, de ser filhos de Deus. Mas também temos que aprender a lição de Marta: que o nosso trabalho, as nossas fadigas, os nossos esforços sejam sempre realizados com capricho, por amor a Deus. Será que Jesus quis dizer que Marta estava errada e Maria estava certa? Dá a impressão que não. Pelo contrário, na resposta de Jesus vamos encontrar uma luz muito importante e muito prática. Uma pessoa que não faz oração, apesar de fazer muitas outras coisas, como Marta, se cansa, se enerva, não saboreia a doçura da vida e o sentido para as coisas que faz. Marta é uma pessoa responsável. É a dona da casa, segundo o Evangelho: talvez fosse a mais velha entre os três irmãos. Não deixa faltar as coisas necessárias da casa. Jesus também gostava do carinho, da atenção, da comida preparada por Marta.

O que nós precisamos aprender é unir o exemplo de Maria e de Marta numa unidade de vida. Mas como seria possível ser Marta e Maria ao mesmo tempo? Em primeiro lugar, cultivar a amizade com Jesus, definindo um momento do dia em que vamos dedicar a conversar com Deus. Podem ser apenas dez minutos. E, depois, esforçar-nos para trabalhar na presença de Deus: cumprir o dever de trabalhar com perfeição e seriedade. Assim faremos um trabalho que nos santifica porque é feito diante de Deus. Para entender bem concretamente, vejamos essa observação de São Josemaria acerca de uma cozinheira que aprendeu a santificar o seu trabalho: “…antes, só descascava batatas, agora santifica-se descascando batatas” (“Sulco”, no 498).

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