São José de Anchieta

D. Carlos Lema Garcia

Celebramos no dia 9 de junho a festa de São José de Anchieta, missionário jesuíta e Apóstolo do Brasil. Sua missão está estreitamente vinculada ao surgimento da cidade de São Paulo, no atual Pátio do Colégio, próximo à praça da Sé. Além disso, São José de Anchieta é patrono do Vicariato para a Educação e a Universidade de nossa Arquidiocese. José de Anchieta nasceu numa das sete ilhas Canárias, de onde avistava os navios que faziam escala em Tenerife, rumo ao Oriente e ao Novo Mundo.

Essa contemplação da grandeza do mar talvez tenha sido um forte motivo a aceitar o convite para vir ao Brasil como missionário jesuíta em 1553, aos 19 anos. No começo de 1554, chegou a São Vicente, a primeira vila fundada no Brasil por Martim Afonso de Sousa. Lá, teve o primeiro contato com os índios. No ano seguinte, junto com o jesuíta português Manuel da Nóbrega, subiu a serra do Mar até o planalto que os índios denominavam Piratininga. Os dois missionários estabeleceram um pequeno colégio, e, em 25 de janeiro de 1554, celebrou-se ali a primeira missa, data da fundação da cidade de São Paulo.

É interessante reparar a sua corajosa decisão de viajar a um mundo desconhecido, numa época em que as viagens duravam um ou dois meses, com desconfortos, enjoos e doenças. Mas Anchieta é um jovem entusiasta, empolgado com a missão de atrair para Jesus Cristo as comunidades indígenas de um novo e desconhecido mundo. Era plenamente consciente de que se tratava de uma viagem sem volta a um lugar em que tudo está por fazer e, portanto, sem saber o que lhe esperava. Surpreende a grandeza de sua fé em Deus e sua coragem em assumir as consequências dessa sua decisão, sabendo que provavelmente não mais veria seus pais, irmãos, parentes e amigos. Realmente, era um jovem muito maduro e determinado para, na idade de 19 anos, enfrentar essa aventura. Estudou a cultura indígena e a aprendeu a falar o tupi-guarani, uma espécie de idioma comum entre as dezenas de tribos indígenas que povoavam essas terras, especialmente o litoral.

Elaborou uma gramática intitulada “Arte da Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil”, publicada em Coimbra em 1595. Foi posteriormente editada, para ajudar os outros padres a aprender as línguas indígenas. Teve mérito o seu esforço em conhecer a realidade dos índios, sua cultura e mentalidade e, a partir daí, impulsionado pelo seu zelo missionário, encontrar diferentes formas evangelizar. Por exemplo, na catequese, usava o teatro e a poesia, tornando a aprendizagem um processo prazeroso.

A data da fundação de São Paulo, 25 de janeiro de 1554 se deve a uma carta de sua autoria enviada ao seu superior em Portugal, relatando a fundação da vila de São Paulo de Piratininga, ao redor do Pátio do Colégio. Encontramos, num trecho dessa carta, um relato que evidencia o heroísmo de sua atividade pastoral: “Andamos visitando várias povoações, tanto de índios como de portugueses, sem fazer caso dos calores, chuvas ou grandes enchentes de rios, e muitas vezes de noite por bosques muito escuros a socorrermos os enfermos, não sem grande trabalho, tanto pela aspereza dos caminhos, como pela inclemência do tempo, máxime sendo tantas estas povoações e tão longe umas das outras… Nós que socorremos as necessidades dos outros, muitas vezes estamos mal dispostos, e, fatigados de dores, desfalecemos no caminho… Muitas vezes nos levantamos do sono, ora para os enfermos, ora para os que morrem.” Falando tupi-guarani e viajando por todo o litoral, ganhou a confiança dos índios e, mesmo depois de muitos incidentes, colaborou decisivamente para o estabelecimento da paz entre tamoios, tupinambás e portugueses.

Transmitiu a fé cristã deixando-nos um grande exemplo de genuína inculturação, que consiste em conhecer os valores positivos de outras culturas, apreciá-los, e utilizar os conceitos da cultura local para transmitir valores da cultura cristã. Por exemplo, explicou aos índios que não deviam praticar o canibalismo, por ser uma horrível manifestação de ódio e também porque Jesus instituiu o Sacramento da Eucaristia, que nos permite “comer” a carne de Cristo na Comunhão, e assim sermos fortalecidos com as graças e virtudes de nosso Redentor; ou seja, deviam deixar a crueldade do canibalismo e aderir a uma forma de “santo antropofagismo espiritual”.

Como estamos na semana da oitava do Corpus Christi, transcrevo um belíssimo poema de São José de Anchieta sobre a Eucaristia:

ORAÇÃO AO SANTÍSSIMO SACRAMENTO – São José de Anchieta

1. Oh! Que pão, oh que comida
Oh! Que divino manjar
Se nos dá no Santo Altar
Cada dia!

2. Filho da Virgem Maria
Que Deus Pai cá mandou
E por nós passou
Crua Morte,

3. E para que nos conforte
Se deixou no Sacramento
Para dar-nos com aumento
Sua Graça.

4. Esta divina fogaça
É manjar de lutadores
Galardão de vencedores
Esforçados.

5. Deleite de namorados
Que, com gosto deste pão,
Deixaram a deleitação
Transitória.

6. Para caber dentro de nós
Vos fazeis tão pequenino
Sem o vosso ser divino
Se mudar.

7. Para vosso amor plantar
Dentro em nosso coração
Achaste tal invenção
De manjar.

8. No qual nosso paladar
Acha gostos diferentes
Debaixo dos acidentes
Escondidos.

9. Com o sangue que derramastes
Com a vida que perdestes
Com a morte que quisestes
Padecer.

10. Morra eu, por que viver
Vós possais dentro de mim
Ganhai-me, pois me perdi
Em amar-me.

11. Pois que para incorporar-me
E mudar-me em vós de todo
Com tão divino modo
Me mudais.

12. Quando na minh’alma entrais
E dela fazeis sacrário,
De vós mesmo é relicário
Que vos guarda.

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